sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Vivendo e aprendendo a jogar...

VOCÊ PODE DESISTIR DE UM objetivo. Você pode descobrir, no meio da estrada, que perdeu a vontade de conhecer o que havia no final dela. Ao longo do caminho, pode ter refletido e mudado de ideia sobre a importância de chegar lá. Isso acontece.
Temos aquelas famosas guinadas na carreira: um executivo da área automotiva que descobre que quer parar de poluir o mundo e plantar verduras sem agrotóxicos. Ou, alguém que abandona uma Faculdade de Direito no meio para entrar em Medicina.
O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado – formado em Engenharia, pós-graduado em Economia – abandonou um emprego na Europa, na Câmara Internacional do Café, para abraçar sua paixão e viajar pelo mundo atrás de rostos e paisagens que o fizessem compreender melhor o mundo. O chefe dele na época achou que “Tião”, como gosta de ser chamado, havia ficado louco.
Mas não é sobre esse tipo de “desistência” corajosa de que vamos falar. A motivação para este assunto são as reações emocionais do italiano Fabio Fognini, vaiado em Miami, Monte Carlo e tantos outros torneios. Expliquemos.

Quatro saídas

Se um tenista está perdendo um jogo de tênis, pode ter basicamente quatro tipos de reações:
  1. Desistir, seja errando bolas de propósito ou usando um tipo crítico de senso de humor para se autoironizar na frente dos outros, agindo como se não se importasse com o resultado do jogo;
  2. Ficar com raiva, frustrado, e disparar xingamentos e autopunições para mostrar aos outros que ele se importa com o resultado do jogo, mas que, naquele momento, está sem competências para vencê-lo;
  3. Ficar com medo de perder, medo do que os outros (pai, mãe, treinador, dirigente) irão pensar a seu respeito e travar, não conseguindo fazer a bola passar do “T”;
  4. Enfrentar o desafio, entendendo que tudo o que pode fazer é dar o melhor de si e lutar até o fim, mesmo com o placar desfavorável, disputando cada ponto dando seu máximo.
No desempenho esportivo, “desistir” é o tipo de resposta que o jogador corajoso e forte mentalmente não terá. Frente a um desafio, o tenista de coragem não foge da responsabilidade de estar num mau dia ou da compreensão de que o adversário está jogando melhor do que ele.
Quando um tenista muito talentoso desenvolve um senso de superioridade extremo, não quer encarar a realidade de que há pessoas tão talentosas ou melhores do que ele. Ou, ainda pior, não quer enxergar e vivenciar a derrota para um tenista menos talentoso do que ele, mas com maior força mental.
É normal ficar frustrado ou com medo nos maus dias em quadra, mas o tenista diferenciado é aquele que não “foge da raia” no momento de encarar o problema

Fuga

Ousamos interpretar assim as oscilações de humor e performance de Fabio Fognini. Quando começa a fazer piadas consigo mesmo e com o público, está querendo dizer, por exemplo, que “esse adversário vencerá porque estou desistindo, não estou a fim de jogar hoje, e não porque ele é melhor do que eu”, ou algo do gênero. Agindo assim, mantém internamente seu senso de superioridade, e escapa do desafio.
O próprio Fognini, de 26 anos, sabe que o aspecto emocional é seu ponto fraco e diz estar trabalhando nisso. Chegar ao 13o lugar do ranking mundial não é para qualquer mortal, e Fognini tem mostrado qualidades indiscutíveis em sua carreira. No mesmo mês de abril deste ano – quando amargou derrota e desistência em Monte Carlo e Barcelona, respectivamente – foi o herói italiano da Copa Davis, vencendo o confronto contra Andy Murray em sets diretos.
Responda rápido: qual o tenista profissional que mais inspira os jovens tenistas a lutarem 100% em quadra? Qual o modelo de força mental inabalável? De coragem? De fair play? É  nele que devemos nos inspirar.
Trabalhar com profissionais especializados no aspecto emocional, ou trabalhar com um treinador que o compreenda e consiga motivá-lo, podem levar Fognini a postos ainda maiores, mas: será que o “buraco” é mais embaixo?
Ao escrevermos sobre a importância das atitudes dos adultos que cercam a criança que joga tênis e participa de torneios, pensamos também no futuro delas não apenas como tenistas, mas principalmente como pessoas autônomas. Se a criança é valorizada apenas quando vence jogos, e criticada em demasia quando perde, pode acabar desenvolvendo noções de valor e de autoestima que apenas funcionam quando as coisas vão bem.
Quando as coisas vão mal, uma pessoa com baixa autoestima quer apenas desistir, esconder a cabeça embaixo da terra como um avestruz, sumir. E o problema de Fognini pode ser simplesmente esse.
O jogo é apenas um jogo. Vencê-lo dá muito prazer, perdê-lo pode deixá-lo triste por alguns momentos, mas o resultado não é a medida de quem você é. Conseguir entender quem você é, seu interior, seus valores, qualidades e desafios, e amar a si mesmo profundamente, esse é o Grande Jogo. Quem sabe Fognini descobre isso a tempo...


Original: http://revistatenis.uol.com.br/artigo/acima-de-tudo_11766.html#ixzz3LiMxb471

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